À medida que aumenta a presença de crianças e adolescentes no ambiente digital, também crescem os casos de violência simbólica.

Dados da TIC Kids Online Brasil 2024 mostram que 93% das crianças e adolescentes de 9 a 17 anos utilizam a internet no país. Entre eles, 83% mantêm contas em redes sociais como WhatsApp, Instagram, TikTok e YouTube.

E isso se torna ainda mais sensível quando observamos que 60% das crianças entre 9 e 10 anos já possuem perfis ativos, apesar de as principais plataformas declararem não aceitar usuários com menos de 13 anos.

Ou seja, um cenário que evidencia não apenas a precocidade da presença digital infantil, mas também a fragilidade dos mecanismos de mediação, proteção e responsabilidade das plataformas.

E mais: ao mesmo tempo, 29% das crianças e adolescentes afirmam já ter vivenciado situações ofensivas na internet, enquanto apenas 8% dos adultos responsáveis acreditam que isso tenha ocorrido. Aliás, esse é um problema estrutural: a violência simbólica no ambiente digital é frequentemente subnotificada, naturalizada ou silenciada.

Mais grave ainda, muitos jovens que sofreram situações ofensivas não contaram a ninguém sobre o ocorrido. Um silêncio que reforça a dimensão simbólica da violência, que raramente deixa marcas visíveis, mas produz impactos profundos e duradouros no desenvolvimento emocional e social.

Vamos bater um papo sobre isso?

Violência simbólica: quando a linguagem também machuca

A violência simbólica é um tema central para compreender os riscos da cultura digital. Porque ao contrário da violência física, ela não depende de agressões explícitas. Mas atua por meio de imagens, discursos, enquadramentos narrativos e escolhas de linguagem que objetificam, silenciam ou naturalizam desigualdades.

No ambiente digital, essa forma de violência se manifesta, por exemplo, quando:

  • a infância é adultizada para gerar engajamento;

  • corpos jovens são tratados como produto ou entretenimento;

  • conteúdos ofensivos são relativizados como “brincadeira”, “polêmica” ou apenas mais uma trend.

Quando isso acontece, portanto, a comunicação deixa de cumprir seu papel de mediação social e passa a reproduzir desigualdades simbólicas, reforçando relações assimétricas de poder.

estratégias de comunicação / violência simbólica

A revolta no Roblox como sintoma cultural

Episódios recentes dentro da plataforma de jogos online Roblox foram amplamente divulgados como falhas pontuais de moderação. No entanto, essa leitura simplifica um fenômeno muito mais profundo.

A verdade é que essa revolta expressa frustração, disputa simbólica e ausência de mediação adequada em ambientes frequentados majoritariamente por crianças e adolescentes. Não se trata apenas de comportamento individual, mas de uma reação coletiva produzida por lógicas de engajamento, design de plataforma e dinâmicas de poder simbólico.

💡A revolta não é o problema. Ela é o sintoma.

Por outro lado, evitar narrativas alarmistas ou punitivas é fundamental. O foco, então, deve estar na compreensão do ecossistema digital que normaliza conflitos, incentiva a exposição e falha em oferecer referências simbólicas seguras.

Inteligência artificial e a amplificação da violência simbólica

O avanço da inteligência artificial adiciona uma camada ainda mais complexa a esse cenário. Até porque dados da SaferNet Brasil indicam que, apenas entre janeiro e julho de 2025, foram registradas 49.336 denúncias de abuso e exploração sexual infantil online, um crescimento de 18,9% em relação ao ano anterior.

Um dos aspectos mais alarmantes é o uso crescente de IA generativa para manipular imagens reais ou criar conteúdos hiper-realistas, como deepfakes e imagens artificiais de crianças e adolescentes em situações de nudez ou violência sexual.

⚠️ A ideia de que, se a imagem não é “real”, o dano não existe ignora um ponto central: imagem é linguagem.

E linguagem produz efeitos sociais. Isto é, mesmo quando gerada artificialmente, ela constrói imaginários, legitima práticas violentas e impacta diretamente a forma como corpos infantis e adolescentes são percebidos.

💡 O dano simbólico é real, ainda que invisível.

Comunicação não apenas informa: ela posiciona

Nesse contexto, a comunicação digital ocupa um papel decisivo. Manchetes, posts institucionais, discursos de marcas e posicionamentos públicos não apenas informam. Eles enquadram, interpretam e atribuem sentido aos acontecimentos.

Além disso, quando a comunicação suaviza ou relativiza a violência simbólica, contribui para sua banalização. Nomear corretamente é reconhecer o problema e assumir responsabilidade. Comunicar, portanto, não é apenas relatar fatos: é posicionar-se eticamente.

O papel estratégico da comunicação responsável

É justamente aqui que a comunicação revela seu papel mais estratégico. Ela pode:

  •  educar para a leitura crítica das imagens digitais ✅
  • ajudar a estabelecer limites simbólicos e narrativos ✅
  • construir narrativas que protejam, em vez de explorar ✅

Educar para a linguagem é, hoje, educar para o digital. Em um contexto atravessado por plataformas, algoritmos e inteligência artificial, comunicar bem significa compreender impactos culturais, sociais e simbólicos e agir a partir dessa consciência.

silêncio estratégico

Como a Letra A comunica com responsabilidade

Na Letra A, entendemos a comunicação como uma prática cultural, ética e política, e não apenas como execução de formatos ou tendências. Nesse sentido, defendemos (e atuamos para) que marcas, instituições e organizações sejam responsáveis pelos sentidos que produzem e reforçam no ambiente digital.

Então, se você quer construir narrativas mais responsáveis, alinhadas aos desafios da cultura digital e aos valores da sua marca, conte com quem sabe que cuidado com a palavra, leitura de contexto e posicionamento consciente são compromissos inegociáveis. Clique aqui e fale conosco!

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Sobre o autor: Lyênia Monteiro

Lyênia Monteiro é estudante de Jornalismo pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) e técnica em Administração. Atualmente, compõe o time de estagiárias de Relações Públicas na Letra A. Já atuou no setor público e é apaixonada por contar histórias. Busca, na comunicação, uma forma de dar voz a diferentes narrativas e construir conexões reais com o público.

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