Quais os limites para a liberdade de expressão? Há limites? Até que ponto o admissível passa a ser intolerável? Numa época em que o ódio está arraigado nos discursos — principalmente das redes sociais — a reflexão sobre o que falamos e escrevemos é pertinente e necessária.

Com o desenvolvimento da tecnologia e a consequente digitalização dos meios, as redes se tornaram parte da nossa vida social. Facebook, Instagram, Twitter, WhatsApp… quem hoje não utiliza pelo menos uma dessas plataformas? Difícil imaginar. A comunicação on-line, facilitadora da interação e formação de vínculos instantâneos, possibilitou a troca de informações, compartilhamentos e diminuiu fronteiras entre pessoas de todo o mundo. O grande problema pode estar no distanciamento do mundo virtual com a realidade física.

Orkut Büyükkökten, criador da rede social que foi sucesso na década passada, concorda: “[…] a internet transformou a humanidade de muitas maneiras, deixou muitas coisas mais fáceis e eficientes, mas estamos mais sozinhos e desconectados do que nunca”. Essa incongruência se refere ao aspecto estrutural da vida em sociedade, à superficialidade das nossas relações humanas físicas mais simples e diárias, como amizades e namoros.

Entretanto, há uma conexão maior e perigosa que pode, sim, ser impulsionada pelo uso das redes. Nós, enquanto produtores de informações, acabamos sendo permissivos. Constantemente, somos responsáveis pela propagação de ideias e informações que, em grupo, formam um canal de interesses. Nesse novo cenário, os sujeitos individuais tornam-se atores coletivos, que utilizam as mídias sociais como recurso para mobilizações e consequente fortalecimento de grupos representativos.

Além disso, a facilidade de acesso aos meios de comunicação proporcionou novas ferramentas para o exercício do “direito à liberdade de expressão”, favoreceu a incitação à violência, a discriminação, a falta de compreensão textual e a deficiente análise conjuntural de fatos. Essa chamada “liberdade” entrou em rota de colisão com exercícios de direitos e acabou potencializando o anonimato nas redes. O ódio que antes se escondia, agora estampa memes, GIF’s, hashtags, textões e vídeos inescrupulosos nas mais diversas mídias.

Estabelecendo um paralelo entre o que temos vivenciando nos últimos tempos, recentemente o caso da morte da vereadora do Rio de Janeiro, Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes, suscitou um debate intenso nas redes sociais – de modo mais preponderante, no Twitter e no Facebook. Antes de completar 48 horas do crime que abalou o país, a internet já estava saturada de comentários de ódio e de defesa à Marielle e aos direitos humanos. Novas mortes já eram desejadas. Ódio destilado em incitações criminosas, ataques racistas e misóginos.

Uma aproximação fictícia, chocante, mas talvez não tão distante da nossa futura realidade pode ser vista no sexto episódio da terceira temporada de Black Mirror. EmOdiados pela Nação” (Hated in the Nation), o episódio traz uma boa reflexão sobre as consequências nocivas da expressividade de ódio nas redes sociais.

Na trama, pessoas são mortas após envolverem-se em polêmicas nas redes sociais e terem seus nomes associados a hashtags incitando a morte dos mesmos. Descobriu-se que existia um vínculo entre os odiados dos trending topics do Twitter e as estranhas e sucessivas mortes ocorridas: abelhas mecânicas (usada inicialmente para substituir o inseto que estaria extinto) eram direcionadas a entrar na cabeça dos odiados, causando dor e sofrimento e fazendo-as perder o controle até morrer. Os usuários das redes não sabiam, mas eles próprios eram os causadores das mortes. Em conjunto, eles uniam forças e difundiam o ódio.

A mensagem final é impactante: não apenas os que são odiados sofrem as consequências. Os próprios sujeitos destiladores de ofensas acabaram morrendo. Uma autodestruição em massa, um genocídio fictício, mas que poderia ser real. A liberdade de expressão confunde-se com a hostilidade expressada nas redes e transpõe os limites do “aceitável” e “humano”.

Volto então à colocação de Orkut Büyükkökten sobre nossa desconexão após o uso da internet: será que o que nos falta é aproximação real? Empatia? Isso aconteceria do mesmo modo na realidade? Sem dúvidas, as redes sociais são facilitadoras para os discursos de ódio. Há carência de humanidade. Diante desse cenário, um último questionamento: estamos, nós, preparados para o que virá?

 

Sobre o autor: Letra A

Assine a newsletter da Letra A e receba nossos conteúdos em primeira mão!

* indicates required

Intuit Mailchimp

Quais os limites para a liberdade de expressão? Há limites? Até que ponto o admissível passa a ser intolerável? Numa época em que o ódio está arraigado nos discursos — principalmente das redes sociais — a reflexão sobre o que falamos e escrevemos é pertinente e necessária.

Com o desenvolvimento da tecnologia e a consequente digitalização dos meios, as redes se tornaram parte da nossa vida social. Facebook, Instagram, Twitter, WhatsApp… quem hoje não utiliza pelo menos uma dessas plataformas? Difícil imaginar. A comunicação on-line, facilitadora da interação e formação de vínculos instantâneos, possibilitou a troca de informações, compartilhamentos e diminuiu fronteiras entre pessoas de todo o mundo. O grande problema pode estar no distanciamento do mundo virtual com a realidade física.

Orkut Büyükkökten, criador da rede social que foi sucesso na década passada, concorda: “[…] a internet transformou a humanidade de muitas maneiras, deixou muitas coisas mais fáceis e eficientes, mas estamos mais sozinhos e desconectados do que nunca”. Essa incongruência se refere ao aspecto estrutural da vida em sociedade, à superficialidade das nossas relações humanas físicas mais simples e diárias, como amizades e namoros.

Entretanto, há uma conexão maior e perigosa que pode, sim, ser impulsionada pelo uso das redes. Nós, enquanto produtores de informações, acabamos sendo permissivos. Constantemente, somos responsáveis pela propagação de ideias e informações que, em grupo, formam um canal de interesses. Nesse novo cenário, os sujeitos individuais tornam-se atores coletivos, que utilizam as mídias sociais como recurso para mobilizações e consequente fortalecimento de grupos representativos.

Além disso, a facilidade de acesso aos meios de comunicação proporcionou novas ferramentas para o exercício do “direito à liberdade de expressão”, favoreceu a incitação à violência, a discriminação, a falta de compreensão textual e a deficiente análise conjuntural de fatos. Essa chamada “liberdade” entrou em rota de colisão com exercícios de direitos e acabou potencializando o anonimato nas redes. O ódio que antes se escondia, agora estampa memes, GIF’s, hashtags, textões e vídeos inescrupulosos nas mais diversas mídias.

Estabelecendo um paralelo entre o que temos vivenciando nos últimos tempos, recentemente o caso da morte da vereadora do Rio de Janeiro, Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes, suscitou um debate intenso nas redes sociais – de modo mais preponderante, no Twitter e no Facebook. Antes de completar 48 horas do crime que abalou o país, a internet já estava saturada de comentários de ódio e de defesa à Marielle e aos direitos humanos. Novas mortes já eram desejadas. Ódio destilado em incitações criminosas, ataques racistas e misóginos.

Uma aproximação fictícia, chocante, mas talvez não tão distante da nossa futura realidade pode ser vista no sexto episódio da terceira temporada de Black Mirror. EmOdiados pela Nação” (Hated in the Nation), o episódio traz uma boa reflexão sobre as consequências nocivas da expressividade de ódio nas redes sociais.

Na trama, pessoas são mortas após envolverem-se em polêmicas nas redes sociais e terem seus nomes associados a hashtags incitando a morte dos mesmos. Descobriu-se que existia um vínculo entre os odiados dos trending topics do Twitter e as estranhas e sucessivas mortes ocorridas: abelhas mecânicas (usada inicialmente para substituir o inseto que estaria extinto) eram direcionadas a entrar na cabeça dos odiados, causando dor e sofrimento e fazendo-as perder o controle até morrer. Os usuários das redes não sabiam, mas eles próprios eram os causadores das mortes. Em conjunto, eles uniam forças e difundiam o ódio.

A mensagem final é impactante: não apenas os que são odiados sofrem as consequências. Os próprios sujeitos destiladores de ofensas acabaram morrendo. Uma autodestruição em massa, um genocídio fictício, mas que poderia ser real. A liberdade de expressão confunde-se com a hostilidade expressada nas redes e transpõe os limites do “aceitável” e “humano”.

Volto então à colocação de Orkut Büyükkökten sobre nossa desconexão após o uso da internet: será que o que nos falta é aproximação real? Empatia? Isso aconteceria do mesmo modo na realidade? Sem dúvidas, as redes sociais são facilitadoras para os discursos de ódio. Há carência de humanidade. Diante desse cenário, um último questionamento: estamos, nós, preparados para o que virá?

 

Sobre o autor: Letra A

Postagens relacionadas

Voltar para o blog

Compartilhe

Comentários

Deixe um comentário