A relação dos jovens brasileiros com o álcool está passando por uma transformação significativa. De acordo com levantamento da Ipsos-Ipec, encomendado pelo Centro de Informações sobre Saúde e Álcool (CISA), a taxa de abstinência entre pessoas de 18 a 24 anos saltou de 46% em 2023 para 64% em 2025. Já entre os adultos de 25 a 34 anos, o movimento segue a mesma tendência, com avanço de 47% para 61%.
Para Zacarias Ramalho, docente de Psicologia da Estácio, o fenômeno vai além de uma tendência pontual. “O aumento da abstinência de álcool entre jovens não é visto pela Psicologia como um fenômeno isolado, mas como resultado de várias mudanças culturais, cognitivas e emocionais acontecendo ao mesmo tempo”, explica.
Entre os fatores que ajudam a entender a abstinência, o especialista destaca uma maior consciência sobre saúde mental e bem-estar. “Há também o acesso a dispositivos e estratégias que contribuem para a redução de sintomas de ansiedade e depressão, o que impacta diretamente no comportamento de consumo”, acrescenta.
Redes sociais e novos comportamentos
Movimentos nas redes sociais também têm contribuído para ampliar o debate sobre o consumo consciente de álcool, especialmente entre jovens. Perfis como o @temgentequenaobebe têm ganhado espaço ao propor reflexões sobre hábitos etílicos que acontecem de forma automática, sem adotar uma abordagem moralista. A iniciativa ganhou destaque pela recente parceria com o Ministério da Saúde e pela colaboração com artistas que estão fazendo escolhas mais conscientes em relação ao álcool, como o cantor João Gomes.
Em depoimento publicado no perfil, o artista relatou mudanças na própria relação com a bebida alcóolica. “É muito sobre como lidar com as emoções e sobre como as informações são passadas para a gente de forma ruim. A gente não aprende a beber”, relatou.
Na avaliação de Zacarias Ramalho, esse tipo de conteúdo pode contribuir para a quebra de padrões. “Muitas vezes, o consumo de álcool acontece dentro de relações cíclicas de continuidade. O indivíduo não desenvolve mecanismos de resiliência e mantém esse comportamento. Questionar esses ciclos é o primeiro passo para a mudança”, afirma.
O especialista também ressalta que a construção estética nas redes sociais, que valoriza rotinas mais equilibradas, autocuidado e bem-estar, reforça esse movimento. “É importante apenas ter cuidado com padrões inalcançáveis, já que cada indivíduo possui seus próprios limites e potenciais”, alerta.
Se mantida, a tendência de redução no consumo de álcool pode gerar impactos positivos tanto na saúde mental quanto nos padrões sociais. “Será possível observar uma redução de transtornos relacionados ao sono e um aumento na adoção de comportamentos mais saudáveis”, pontua o docente.
Além disso, há os impactos diretos na saúde física. A Organização Mundial da Saúde (OMS) reforça que não há nível seguro para o consumo de álcool. Em declaração publicada na revista The Lancet Public Health, em 2023, o órgão destacou que qualquer quantidade ingerida pode trazer prejuízos ao organismo, incluindo o risco de câncer.
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