O Abril Azul é o mês dedicado à conscientização sobre o Transtorno do Espectro Autista (TEA), com o objetivo de promover a inclusão e fortalecer a rede de apoio desse grupo. No campo das políticas públicas, um avanço recente reforça esse cenário: em 2025, o Senado Federal aprovou o PL 4262/2020, que inclui a nutrição entre os direitos dos autistas. A medida dialoga com uma necessidade concreta, já que, segundo pesquisa publicada na Revista da Associação Brasileira de Nutrição (Rasbran), 53,4% das crianças e adolescentes com o transtorno apresentam seletividade alimentar.
Esse quadro é caracterizado por um padrão de recusa e restrição a uma ampla variedade de alimentos. “A seletividade alimentar está ligada a questões sensoriais e emocionais. É como se o cérebro percebesse certos alimentos como experiências aversivas, e não apenas como algo a ser comido”, explica Helington Costa, coordenador do curso de Psicologia da Estácio.
Para pessoas com TEA, a introdução de um alimento novo pode gerar ansiedade, resistência e reações emocionais intensas. “Pessoas dentro desse espectro tendem a buscar previsibilidade e rotina, e isso se reflete diretamente na alimentação. Comer sempre os mesmos alimentos pode gerar segurança em um mundo que, muitas vezes, já é percebido como imprevisível”, completa o profissional.
Ana Carolina Costa Mota, responsável pela Clínica de Nutrição da Estácio, destaca que, para pessoas com esse padrão alimentar restrito, os principais fatores envolvidos incluem hipersensibilidade sensorial, recusa alimentar, rigidez comportamental e a realização de rituais, como preferir sempre o mesmo prato, local ou utensílio. Habilidades relacionadas à refeição e à mastigação também podem ser prejudicadas.
“Além disso, a recusa a determinados alimentos aumenta o risco de deficiências de micronutrientes, desnutrição, sobrepeso, problemas gastrointestinais e deficiência na ingestão de fibras alimentares devido ao baixo consumo de frutas, legumes e verduras. Essas deficiências nutricionais podem contribuir para anemia, crescimento prejudicado, baixa densidade mineral óssea, alterações imunológicas e constipação intestinal”, observa a nutricionista.
Como familiares e acompanhamento profissional podem ajudar
A condução adequada do tratamento da seletividade alimentar passa, necessariamente, pelo envolvimento da família e pelo suporte profissional especializado. No dia a dia, a forma como os responsáveis lidam com essa restrição pode influenciar diretamente a evolução do quadro.
“A forma como o adulto conduz a situação faz toda diferença. Pressionar, forçar ou insistir excessivamente tende a piorar o quadro, aumentando ainda mais a resistência. Por outro lado, estratégias mais acolhedoras e graduais têm melhores resultados”, afirma Helington.
Os especialistas orientam que uma rotina organizada exerce papel estratégico nesse processo. Pequenos ajustes podem fazer grande diferença, como: reduzir estímulos excessivos, organizar uma rotina alimentar consistente, evitar distrações durante as refeições e manter uma apresentação previsível dos alimentos.
“O acompanhamento psicológico especializado tem o papel de compreender os fatores emocionais envolvidos, ajudando na redução da ansiedade e na ampliação da flexibilidade comportamental”, descreve o docente de psicologia.
Para evitar a rejeição de novos alimentos, a introdução deve ocorrer de forma gradual e lúdica, respeitando o ritmo do indivíduo. “A aproximação com a comida deve ser feita de forma progressiva, desde a tolerância à sua presença no prato até o consumo em pequenas quantidades. Uma estratégia é introduzir alimentos semelhantes aos já aceitos, modificando de forma progressiva características como a textura, o formato ou sabor. Além disso, a observação de outras pessoas consumindo o alimento pode facilitar a aceitação”, destaca Ana Carolina.
“Com informação, acolhimento e acompanhamento adequado, é possível tornar a relação com a comida mais leve, saudável e, principalmente, mais respeitosa com quem está vivenciando esse processo”, finaliza o psicólogo.
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