O Dicionário de Oxford escolheu, como palavra do ano de 2025, o termo rage bait (algo como “isca de raiva”, em português). E para além do registro linguístico, a escolha revela um sintoma claro do nosso ecossistema informacional, isto é, a exploração intencional – e muitas vezes indiscriminada – de gatilhos emocionais para provocar indignação, acelerar engajamento e capturar atenção.
A verdade é que quem atua com criação, profissionalmente ou não, já sabe que precisa ir além da superfície. Mas não basta reconhecer que conteúdos provocativos performam melhor ou que emoções impulsionam métricas. É necessário compreender como, por que e a que custo esses gatilhos são acionados.
Afinal, se toda comunicação mobiliza emoções, onde termina a estratégia legítima e começa a manipulação?
E vamos além: quais são os riscos reputacionais, éticos e estratégicos, para marcas e pessoas, envolvidos no uso indiscriminado de gatilhos emocionais na comunicação?
Este artigo propõe uma reflexão prática e crítica sobre esse limite, cada vez mais tênue. Vamos juntos?
Gatilhos emocionais: do vínculo à reação automática
Antes de tudo, é importante separar conceito de distorção.
Gatilhos emocionais são recursos legítimos quando usados para criar identificação, empatia e sentido. Até porque é impossível dissociar comunicação de emoções. Elas organizam decisões, orientam escolhas e ajudam marcas a se tornarem relevantes. Portanto, não se trata de eliminá-las da estratégia – o que, aliás, seria impossível.
O problema surge quando a emoção deixa de ser ponte e passa a ser atalho. Nesse caso, a comunicação não convida à reflexão, mas induz à reação automática. Gradualmente, os conteúdos passam a explorar medo, raiva ou ressentimento – não para informar ou conectar, mas para manter atenção a qualquer custo.
Assim, rage bait e gatilhos emocionais se diferenciam porque o primeiro opera no limite do conflito. Ele simplifica debates complexos e se serve de polarizações para transforma nuances em antagonismos. Embora gere métricas de curto prazo, compromete, no médio e longo prazos, a credibilidade da marca e a qualidade do diálogo público.

Rage bait como sintoma da economia da atenção
A ascensão do rage bait não acontece por acaso. Pelo contrário: ela está diretamente ligada à lógica algorítmica das plataformas digitais, onde atenção é moeda escassa e conteúdos que despertam emoções intensas tendem a performar melhor.
Consequentemente, os gatilhos emocionais passam a ser calibrados não pela relevância do conteúdo, mas pela sua capacidade de gerar reação. Likes, comentários e compartilhamentos tornam-se indicadores de sucesso – ainda que tenham origem em percepções negativas.
Sabe aquele ditado “falem mal, mas falem de mim”? Pois é.
Mas essa lógica cobra um preço. Marcas que apostam sistematicamente na indignação correm o risco de se tornarem reféns do próprio tom. Além disso, públicos expostos continuamente a estímulos extremos tendem à fadiga emocional, à desconfiança e, eventualmente, ao afastamento.
💡 Resumindo: o engajamento cresce, mas o vínculo enfraquece.
Gatilhos emocionais e responsabilidade de marca
É aí que entra a maturidade estratégica. Ou seja, devemos entender que usar gatilhos emocionais, seja na comunicação ou no branding, exige consciência de contexto, intenção e impacto. Emoção não é sinônimo de manipulação, assim como neutralidade não é sinônimo de ética.
Marcas responsáveis sabem que toda escolha narrativa comunica valores. Então, perguntar “isso engaja?” é insuficiente. É preciso perguntar, simultaneamente: “isso constrói?”, “isso informa?”, “isso respeita a inteligência do público?”.
Além disso, a consistência importa. Uma marca que se posiciona como confiável, educativa ou inovadora não pode recorrer, ocasionalmente, a estratégias de rage bait sem gerar ruído. A incoerência, nesse caso, mina o branding de dentro para fora.
Para além do clique: caminhos mais sustentáveis
Vale reforçar: abandonar o rage bait não significa abrir mão de emoção. Na verdade, significa investir em gatilhos emocionais na comunicação que ativem curiosidade, pertencimento, reconhecimento e até desconforto – desde, claro, que produtivo.
Narrativas bem construídas, dados contextualizados e perguntas honestas tendem a gerar engajamento qualificado. Embora cresçam mais lentamente, constroem reputação sólida e comunidades mais duráveis.
💡 E no cenário informacional que vivemos, tão saturado de ruído, talvez o verdadeiro diferencial não seja gritar mais alto, mas comunicar melhor.
O jeito Letra A de comunicar sem atalhos fáceis
Diante da banalização do rage bait, queremos reafirmar o valor da boa presença digital. Aquela que comunica com intenção, profundidade e responsabilidade. Aqui na Letra A, esse é um exercício ético e, também, uma decisão estratégica.
Não por acaso, estamos há quase 30 anos no mercado, com relações duradouras e clientes que atravessam ciclos conosco. Essa permanência diz menos sobre fórmulas prontas e mais sobre escolhas conscientes: compreender contextos e sustentar narrativas coerentes ao longo do tempo.
Porque entendemos que usar emoção não é provocar por provocar, mas criar sentido. É reconhecer que toda mensagem tem impacto – e que impacto não se mede apenas em cliques, mas em reputação, vínculo e legado. Por isso, vale a reflexão:
Você sabe o que engaja hoje?
E o que sustenta a sua marca amanhã?
Se essas perguntas deixaram uma pulguinha atrás da orelha, talvez estejamos falando do mesmo lugar. A Letra A Comunicação atua justamente nesse território: ajudando marcas a traduzirem propósito em narrativa, sem recorrer a atalhos fáceis.
Portanto, se você também acredita que comunicar bem é comunicar com responsabilidade, vale conhecer nosso trabalho e continuar essa conversa. Clique aqui e fale conosco!


