Outro dia, vendo um noticiário de TV, me chamou atenção uma reportagem que destacava a iniciativa de uma empresa de cosméticos de abolir testes com animais.  Fiquei acompanhando mais atenta para saber o nome da empresa, pois iria, certamente, priorizar seus produtos. Mas, em nenhum momento, apareceu a marca: nem nas imagens, nem na identificação dos entrevistados pelos caracteres, nem no conteúdo das entrevistas, nem no texto da repórter.

O caso trouxe de volta a reflexão: por que os veículos de comunicação (em especial as emissoras de TV) insistem em omitir as marcas nos casos dos bons exemplos? Se a ideia é dar boas notícias e prestar serviço à população, o objetivo então não é cumprido, uma vez que a informação é transmitida de forma incompleta. Lembro que quando repórter, discutíamos sobre isso com frequência na redação e até nos treinamentos da Globo.

Curiosamente, dias depois, no mesmo noticiário, o destaque era a denúncia contra o grupo que fabrica a cerveja da marca Proibida. Claro que, neste caso, a marca aparecia de todas as formas, várias vezes: nas imagens, no texto, nas entrevistas. Não estou aqui entrando no mérito da culpabilidade da empresa, estou levantando a seguinte análise: para as reportagens negativas, as marcas são exaustivamente expostas, ao passo que nas positivas, são proporcionalmente omitidas.

É aqui que entra o argumento do setor comercial do veículo de comunicação: “se a marca não é anunciante da emissora, não justifica a exposição da marca”. Mas como fica o serviço prestado à sociedade através da informação?

Sobre a exposição da marca nos casos de denúncias e notícias negativas, nunca é demais lembrar o caso da Escola Base, incansavelmente devassada devido a denúncias de assédio infantil. Depois de todo o prejuízo à marca, foi comprovada a inocência dos donos da empresa. Mas aí já era tarde demais: a escola havia fechado e seus proprietários, moralmente condenados injustamente pela imprensa pelo resto da vida.

Daquele ocorrido, restou a vergonha e a lição aos veículos de comunicação: é preciso ter critérios mais rigorosos ao expor uma marca ou um nome, diante de possíveis denúncias. E quanto à exposição positiva? É bem verdade que vez ou outra assistimos a bons exemplos, há luz no fim do túnel. No entanto, a imprensa segue guardando muito mais rigor ao expor uma marca de forma positiva, diferente de quando acontece o contrário.

 

Sobre o autor: Ângela Bezerra

Diretora da Letra A Comunicação, Ângela Bezerra é jornalista formada pela UFRN com MBA em Marketing Estratégico e é mestra em Antropologia pela UFRN. Trabalhou como repórter na Inter TV Cabugi (afiliada da Rede Globo) por 10 anos e lecionou como professora convidada na pós-graduação em Assessoria de Imprensa da Estácio. Atua há mais de 20 anos com assessoria de comunicação.

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Outro dia, vendo um noticiário de TV, me chamou atenção uma reportagem que destacava a iniciativa de uma empresa de cosméticos de abolir testes com animais.  Fiquei acompanhando mais atenta para saber o nome da empresa, pois iria, certamente, priorizar seus produtos. Mas, em nenhum momento, apareceu a marca: nem nas imagens, nem na identificação dos entrevistados pelos caracteres, nem no conteúdo das entrevistas, nem no texto da repórter.

O caso trouxe de volta a reflexão: por que os veículos de comunicação (em especial as emissoras de TV) insistem em omitir as marcas nos casos dos bons exemplos? Se a ideia é dar boas notícias e prestar serviço à população, o objetivo então não é cumprido, uma vez que a informação é transmitida de forma incompleta. Lembro que quando repórter, discutíamos sobre isso com frequência na redação e até nos treinamentos da Globo.

Curiosamente, dias depois, no mesmo noticiário, o destaque era a denúncia contra o grupo que fabrica a cerveja da marca Proibida. Claro que, neste caso, a marca aparecia de todas as formas, várias vezes: nas imagens, no texto, nas entrevistas. Não estou aqui entrando no mérito da culpabilidade da empresa, estou levantando a seguinte análise: para as reportagens negativas, as marcas são exaustivamente expostas, ao passo que nas positivas, são proporcionalmente omitidas.

É aqui que entra o argumento do setor comercial do veículo de comunicação: “se a marca não é anunciante da emissora, não justifica a exposição da marca”. Mas como fica o serviço prestado à sociedade através da informação?

Sobre a exposição da marca nos casos de denúncias e notícias negativas, nunca é demais lembrar o caso da Escola Base, incansavelmente devassada devido a denúncias de assédio infantil. Depois de todo o prejuízo à marca, foi comprovada a inocência dos donos da empresa. Mas aí já era tarde demais: a escola havia fechado e seus proprietários, moralmente condenados injustamente pela imprensa pelo resto da vida.

Daquele ocorrido, restou a vergonha e a lição aos veículos de comunicação: é preciso ter critérios mais rigorosos ao expor uma marca ou um nome, diante de possíveis denúncias. E quanto à exposição positiva? É bem verdade que vez ou outra assistimos a bons exemplos, há luz no fim do túnel. No entanto, a imprensa segue guardando muito mais rigor ao expor uma marca de forma positiva, diferente de quando acontece o contrário.

 

Sobre o autor: Ângela Bezerra

Diretora da Letra A Comunicação, Ângela Bezerra é jornalista formada pela UFRN com MBA em Marketing Estratégico e é mestra em Antropologia pela UFRN. Trabalhou como repórter na Inter TV Cabugi (afiliada da Rede Globo) por 10 anos e lecionou como professora convidada na pós-graduação em Assessoria de Imprensa da Estácio. Atua há mais de 20 anos com assessoria de comunicação.

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